Escolas

A carga de trabalho aumentou e o bem-estar diminuiu?

Se a escola já era um local para apagarem incêndios, nesse momento de incertezas e crises, infelizmente, isso se intensificou

Uma pesquisa divulgada na revista norte-americana Harvard Business Review, feita com cerca de 1.500 entrevistados de 46 países, revelou que a maioria das pessoas têm enfrentado e passado por situações de estresse na vida pessoal e no ambiente corporativo devido à pandemia do novo coronavírus.


De ambos os lados, todos estão vivendo em meio a momentos de incertezas, medo e tantos outros sentimentos, e com isso a saúde mental de boa parte da população mundial tem sido brutamente afetada.

A síndrome de burnout, também conhecida como síndrome do esgotamento profissional, é um distúrbio psíquico causado pela exaustão extrema, sempre relacionado ao trabalho de um indivíduo, incluindo carga de trabalho insustentável, ausência de uma comunidade de apoio e a sensação de que o mesmo não tem controle sobre sua vida pessoal, e também sobre as questões profissionais.

Liderado pela equipe de pesquisadores, Jennifer Moss, Michael Leiter, Christina Maslach e David Whiteside, o estudo faz parte de um projeto que visa medir as taxas de burnout nas pessoas durante a pandemia da Covid-19. Grande parte dos entrevistados relataram declínios na saúde mental, desafios com o cumprimento das necessidades básicas, e sentimentos de solidão e isolamento. Também observaram o aumento das demandas de trabalho e o crescente desengajamento dos funcionários.


Nas escolas isso também não foi diferente! Segundo a União pelas Escolas Particulares de Pequeno e Médio Porte, 30% a 50% das instituições de ensino correm o risco de falir nesse momento de pandemia. Com essa tensão instaurada, adicionada a incerteza sobre a volta às aulas e à necessidade de trabalhar de uma maneira jamais vista em todo o setor, com novas demandas, famílias aflitas e a taxa de inadimplência em níveis altíssimos, a rotina dos mantenedores e diretores escolares passou a ficar ainda mais estressante e turbulenta.

Confira abaixo algumas citações de pessoas entrevistadas nessa pesquisa Harvard Business Review, que falaram sobre o declínio no seu bem-estar geral, em função, principalmente, do aumento das demandas de trabalho.


"Quando nos deslocamos para o trabalho, havia uma sensação de que poderíamos terminar as tarefas naquele dia. No estado atual não há nada disso, como meu empregador costuma dizer: ‘Sabemos onde você está'. Esta situação criou uma movimentação constante e com uma incapacidade de desacelerar. Admito que posso passar mais tempo com minha família, o que compensa isso, mas ainda é desafiador." — Homem de 42 anos que trabalha como funcionário de serviços.


"Embora meu bem-estar geral esteja basicamente bem, tenho dias em que me sinto mais sem rumo ou sem amarras. Não tenho mais certeza se estou trabalhando para o mesmo objetivo que meus colegas. Estamos todos seguindo na mesma direção? Estamos apenas fazendo o nosso melhor para manter nossas cabeças acima da água, e talvez isso seja suficiente? Mas há sempre essa sensação persistente de: 'O que você conseguiu hoje, esta semana, este mês?' de liderança que cria pressão para manter a mesma produtividade." — Mulher de 38 anos que trabalha como gerente de administração pública.


É possível notar semelhanças entre as menções acima e a situação do setor educacional. A demanda de trabalho também apresentou grandes transformações no ambiente escolar. Afinal, mantenedores, diretores, corpo docente e alunos precisaram implementar e se adaptar a um modelo educacional nunca feito antes, em toda a história.

Aulas seguiram de forma remota, houve a necessidade de mudar a forma de se comunicar com as famílias, e também a maneira de como acompanhar o desenvolvimento das crianças e adolescentes.

Alta carga de trabalho

Além disso, por conta da queda do faturamento em grande parte das IEs, principalmente no segmento de Berçário e Educação Infantil, diversas escolas sentiram a necessidade de reduzir seu quadro de funcionários, para assim evitar um prejuízo ainda maior à sua saúde financeira e evitar ao máximo o risco de falência.

Com isso, a demanda de trabalho aumentou. Mantenedores tiveram que “apagar ainda mais incêndios”, cuidando integralmente da gestão financeira, pedagógica, administrativa e ainda mais funções.

Outros pontos sobre o estado da saúde mental, durante a pandemia do coronavírus, também foram apontados pelos participantes da pesquisa. Eles declararam que a separação entre a vida profissional e a pessoal desapareceu, enquanto as cargas de trabalho e as horas aumentavam.


"Minha saúde mental se deteriorou significativamente. Lidar com a ansiedade e a preocupação generalizadas durante esta pandemia ocupa muita largura de banda; precisar trabalhar isso significa que estou gastando mais energia do que o normal para gerenciar o barulho na minha cabeça. É cansativo. Estou muito cansado para malhar, estou muito cansado para o FaceTime com amigos ou família, estou muito cansado para cozinhar refeições saudáveis." — Mulher de 36 anos que trabalha como gerente de Fabricação.


"Não há semelhança de equilíbrio ou separação. Agora meu trabalho está literalmente na minha sala de estar e minha paternidade está acontecendo no meu ‘escritório’, que é a mesa da cozinha. Os papéis colidem, e isso torna uma situação quase cômica - tendo reuniões importantes do chão do meu armário, enquanto minha filha me passa notas debaixo da porta dizendo que ela precisa de um lanche." — Mulher de 36 anos que trabalha como diretora de Educação.


"Tudo parece uma correria. Há mais pressão para produzir, e ninguém respeita os limites do tempo. Os e-mails começam às 5h30 da manhã e não terminam até as 22h, porque eles sabem que você não tem para onde ir. Para pessoas solteiras sem famílias, é pior, porque você não pode dizer: 'Eu preciso ir cuidar dos meus filhos'." — Mulher de 36 anos que trabalha com Marketing.


Com a preocupação e o medo de falência nas escolas, a saúde mental de toda a equipe foi impactada. Coordenadores e professores sentiram a necessidade e toda a pressão para se reinventarem com a programação de aulas on-line, para assim engajar famílias e alunos.


Vale mencionar que, na pesquisa, a tecnologia, e especificamente o aumento das reuniões virtuais, também foi um desafio para as pessoas. Foi uma atividade que afetou a atuação de profissionais de diferentes áreas.

Porém, também houveram contrapontos no estudo. Apesar de ser minoria, uma parcela dos entrevistados viu o bem-estar relacionado ao trabalho melhorar.

Entenda:


"Eu tive que ser criativo sobre como relaxar e recarregar em casa, o que realmente ajudou no meu equilíbrio entre vida profissional e profissional." — Mulher de 37 anos que trabalha como gerente de Fabricação.


"Eu passei de estar no escritório 45 horas por semana para estar em casa o tempo todo. Eu não tenho mais que dirigir para reuniões em toda a área metropolitana, e eu conduzo negócios do meu escritório. Eu perdi peso, estou comendo de forma mais saudável, e tenho mais tempo com a família." — Mulher de 64 anos trabalhando como gerente em uma organização sem fins lucrativos.


Como outro ponto positivo, a quarentena também foi um período do nascimento de uma grande ideia para o setor educacional, que chegou para impulsionar a gestão escolar em um processo tão simples que toda escola pode ser parte do amanhã.


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