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Tecnologia

Pensamento crítico, mediação humana e IA: como equilibrar essa tríade na educação

Especialistas em educação explicam os impactos da inteligência artificial no ensino e mostram como escolas podem formar alunos mais críticos, criativos e preparados para um mercado em constante transformação.

Publicado em
15/6/26
Atualizado em
15/6/26
05 min
💡 Dica: se a palavra estiver azul, ela é clicável e te leva ao link com mais detalhes!

A inteligência artificial já faz parte da rotina de milhões de pessoas e, consequentemente, do ambiente escolar. A discussão não é mais sobre permitir ou impedir que os alunos utilizem essas ferramentas, mas sobre como prepará-los para usá-las de forma crítica e consciente. 

Durante a Bett Brasil 2026, a diretora de Produto da Arco Educação, Larissa Sangalli, mediou um debate sobre inteligência artificial, pensamento crítico e mediação humana com Ademar Celedônio, diretor de Ensino e Inovações Educacionais da Arco Educação, e Raniere Candido, diretor de Tecnologia e Inovação do Colégio Paraíso.

Ao longo do painel, os especialistas discutiram os impactos da IA nos processos de ensino e aprendizagem, os riscos do uso superficial da tecnologia, os desafios da formação docente e o papel das escolas na construção de competências essenciais para um mundo cada vez mais digital.

Confira os principais destaques da conversa.

Qual é o principal desafio das escolas diante da inteligência artificial?

Raniere Candido:

Toda vez que eu penso em inovação, acredito que ela só faz sentido quando provoca mudança de comportamento. Se a inovação não vier atrelada a uma mudança de comportamento, ela vira apenas mais um modismo. E, quando a gente olha para a inteligência artificial, o primeiro ponto não é mais discutir se o aluno deve ou não usar. Isso já aconteceu. A questão agora é outra: qual é a maturidade digital da escola para lidar com isso? 

Porque os alunos já vivem em um mundo completamente digitalizado. Eles pedem comida por aplicativo, se deslocam usando aplicativos, aprendem por vídeo e usam IA em casa. Se esse comportamento digital não entra na escola, a escola deixa de fazer parte da realidade deles. 

Ademar Celedônio:

O problema é que a tecnologia costuma ser mais aceita do que compreendida. Milton Santos já falava isso. Primeiro a sociedade adota. Depois, tenta entender os impactos. Foi assim com a internet, com os aplicativos, com as redes sociais e agora está sendo assim com a IA também. 

A inteligência artificial já chegou. Sete em cada dez alunos já usam o ChatGPT. E, provavelmente, os outros três só não admitiram. Entre os professores brasileiros, mais da metade já usa no dia a dia. Então, a discussão não é mais se isso vai acontecer. Já aconteceu e agora ela precisa ser, de fato, compreendida. 

Como desenvolver pensamento crítico numa geração acostumada a respostas prontas?

Raniere Candido:

O primeiro problema é que nós temos uma sociedade que lê pouco. E, sem repertório, não existe pensamento crítico. Hoje, o aluno tem acesso a uma quantidade abundante de informação, mas isso não significa profundidade. Se ele não constrói repertório, não consegue fazer perguntas melhores.

Participei recentemente de uma formação em que um professor falava sobre uma disciplina chamada "ignorância". E a ideia era justamente ensinar os alunos a entenderem o quanto ainda não sabem. Porque, quando você entende que seu conhecimento é limitado, começa a buscar mais repertório, mais profundidade e perguntas melhores.

Ademar Celedônio: 

Cada plataforma de IA tem um tipo de treinamento, e é justamente aí que o pensamento crítico precisa ser exercitado. É preciso questionar, inclusive trazendo provocações que são verdadeiras e falsas, para que os alunos desenvolvam essa capacidade de análise. 

A IA pode ajudar na aprendizagem?

Raniere Candido:

O problema não é usar IA, mas usá-la mal. Quando o aluno simplesmente pede a resposta pronta, ele não aprende. Mas quando utiliza a IA para aprofundar um tema, fazer conexões e explorar dúvidas, o potencial muda completamente. Só que isso exige orientação da escola e mudança de comportamento dos professores. 

Ensinar a perguntar virou mais importante do que ensinar a responder?

Ademar Celedônio:

A IA é matemática, é probabilidade. Ela foi treinada com dados da internet inteira, livros, artigos científicos e conteúdos diversos. Mas informação não é conhecimento. Quem transforma aquilo em conhecimento são as perguntas.

Por isso, ensinar a perguntar virou essencial. Quando você coloca a mesma pergunta no ChatGPT, no Gemini e no Claude, recebe respostas diferentes. Então, o aluno precisa aprender a questionar, comparar, argumentar e defender ideias.

Como a escola pode adaptar avaliações com IA?

Ademar Celedônio:

A IA não acabou com as avaliações ou com o dever de casa. Ela acabou com a ingenuidade de achar que qualquer tarefa entregue em casa representa, automaticamente, aprendizagem. Uma boa tarefa pode ajudar a organizar o pensamento, fortalecer hábitos, revelar dúvidas e preparar melhor a aula seguinte.

Uma tarefa meramente repetitiva, facilmente respondida por uma ferramenta digital, tende a perder força como evidência de aprendizagem. Em vez de perguntar apenas “o aluno usou IA?”, talvez a escola precise fazer perguntas melhores: ele entendeu o que entregou? Consegue explicar oralmente? Sabe defender a resposta? Consegue apontar um erro ou uma limitação? Consegue melhorar a primeira versão? Consegue resolver uma variação do problema? Consegue transformar uma sugestão da IA em aprendizagem própria?

Uma professora do Rio Grande do Sul fez uma coisa muito interessante. Ela pediu que os alunos colocassem a mesma pergunta em três IAs diferentes e, depois, defendessem qual resposta fazia mais sentido. O dever de casa virou debate. Porque a escola já sabe que o aluno vai usar IA. Então, a pergunta deixa de ser "como impedir?" e passa a ser "como aprofundar?". E isso provavelmente vai trazer de volta algo muito importante: avaliações orais, argumentação e defesa de ideias.

Por que o repertório continua sendo tão importante?

Raniere Candido:

Você não consegue desenvolver pensamento crítico sem repertório. O aluno pode até acessar muito conteúdo, mas, se aquilo não for trabalhado em profundidade, continuará em uma camada superficial do conhecimento.

Foi por isso que começamos a fortalecer a aprendizagem baseada em projetos no Colégio Paraíso. Percebemos que os alunos precisavam sair da superfície e começar a investigar problemas reais.

Como preparar alunos para profissões que ainda nem existem?

Ademar Celedônio:

As novas profissões costumam surgir a partir das transformações que acontecem ao nosso redor. Mas o grande ponto não são exatamente as profissões. São as habilidades.

Talvez, há cinco anos, eu dissesse que programação era o caminho mais seguro. Hoje, a própria IA já programa muita coisa. Então, o que permanece relevante são as habilidades humanas: criatividade, pensamento crítico, capacidade de resolver problemas complexos e adaptação.

E as escolas têm uma responsabilidade enorme nesse processo.

Podemos afirmar que as habilidades humanas ficaram mais importantes?

Raniere Candido:

Mais do que nunca. A grande questão agora é desenvolver habilidades que não sejam facilmente substituídas por máquinas. O mundo vai continuar criando profissões novas. Mas quem não desenvolver habilidades humanas vai ter dificuldade para encontrar espaço nesse novo cenário.

Por que ainda precisamos ensinar conteúdos complexos?

Ademar Celedônio:

Às vezes o aluno pergunta por que precisa aprender equação do segundo grau se nunca vai usar aquilo diretamente. Mas o objetivo não é só a fórmula, é desenvolver conexões neurais, raciocínio, abstração e capacidade de resolver problemas complexos. 

O cérebro aprende em camadas. Ele acumula conhecimentos que servirão de base para que, mais adiante, consigamos desenvolver raciocínios mais complexos e resolver problemas difíceis. 

Conhecimento constrói repertório. E o repertório é o que permite questionar o mundo.

Como preparar professores para um cenário que muda tão rápido?

Raniere Candido:

O professor precisa estar em um ambiente que provoque mudança. Se ele trabalha em um lugar onde tudo continua exatamente igual há muitos anos, dificilmente vai se sentir motivado a experimentar algo novo.

Por isso, a cultura da escola importa tanto. A liderança precisa provocar formação, troca, experimentação e mudança de comportamento.

Em um cenário de tantas mudanças, por que a preparação para o vestibular continua relevante? 

Ademar Celedônio:

A regra do jogo ainda existe. Não podemos deixar de incentivar os jovens a buscar a formação universitária. O vestibular continua sendo uma porta importante de acesso a melhores oportunidades. 

Mas isso não impede a escola de desenvolver projetos, pensamento crítico, criatividade e protagonismo. Uma coisa não exclui a outra.

Clique aqui e ouça o bate-papo na íntegra.

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